17 de jan de 2011

Nerds - HELL Paris -75016

Lolita Pille escreve sem pudor sobre o mundo ao seu redor. Retrato sincero e devastador da juventude rica e consumista de Paris, que preenche suas vidas com sexo, álcool, drogas e roupas de grife, Hell poderia se passar em qualquer grande cidade do mundo, pois espelha os valores e o comportamento de uma classe para quem o mundo se divide em duas categorias: o ‘nós’ e o ‘vocês’. Uma classe que, sem encontrar limites para o prazer, vive o angustiante vazio do excesso.

Hell, pseudônimo da narradora, é uma garota rica, fútil e arrogante, detestável sob todos os aspectos, que se define logo na primeira frase do livro como ‘uma putinha, daquelas mais insuportáveis, da pior espécie’.

Assumidamente frívola e preconceituosa, ela gasta diariamente em butiques de luxo mais do que o salário mensal da maioria dos leitores do livro. Niilista, despreza a humanidade, e seu único credo é ’seja bela e consumista’. Todos os sonhos que o dinheiro pode comprar estão à sua disposição, incluindo drogas legais e ilegais. Faz amor sem amor e resume sua vida assim:’ Aos 14 anos entrei numa boate e nunca mais saí’.

Em sua narrativa nervosa quase não há trama, porque Hell e suas amigas vivem um presente perpétuo, uma sucessão de prazeres cujo sentido está nas aparências e na superfície das coisas. À primeira vista, elas têm um cartão de crédito no lugar do cérebro, um aspirador no lugar do nariz - e no lugar do coração um vazio. Sua identidade reside nos signos exteriores da riqueza e do status social. Sem suas bolsas de grife, elas perdem o equilíbrio.

Lolita escreveu o livro nas mesas de cafés da moda, às quatro horas da manhã, depois de sair das boates mais caras de Paris. Nos intervalos (e durante) as aulas, a que pouco assistia, no Liceu La Fontaine, frequentado pela juventude dourada do 16ème Arrondissement. Não precisou pesquisar muito: bastava olhar para os lados, conversar com as amigas insolentes e mimadas e descrever seu próprio cotidiano, vivida em badalados restaurantes, bares e hotéis e áreas VIPs de boates, sem falar nos passeios de Porches e Ferraris e nas viagens nos jatinhos de amigos.

Fenômeno editorial na França, Hell é fascinante e provocador, um livro desabusado e lúcido, diante do qual é impossível permanecer indiferente. Talvez o segredo do seu impacto esteja no fato de que, por traz da irritante exaltação do meio que frequenta, Lolita o denuncia da forma mais dura possível. A partir do momento em que faz um aborto, Hell adquire (diante de uma loja Baby Dior…) uma consciência amarga da vacuidade da sua existência. É então que a autora desvenda sem hipocrisia o mundinho fútil dos muito ricos, o lado sombrio da juventude dourada.

Essa traição, aliás, teve seu preço. Depois do lançamento de Hell, Lolita foi proibida de entrar em boates e rejeitada por amigos que se viram retratados em situações embaraçosas. Afinal, ela nunca disse que qualquer semelhança do seu livro com a realidade seria mera coincidência. Ao contrário, ela afirma que não exagerou em nada, apenas romanceou um pouco a sua vida real.

Sartre disse que o inferno são os outros, mas Hell carrega o inferno dentro dela, e no próprio nome. Ela é filosoficamente pessimista, tendo moldado seu ceticismo nas leituras de Baudelaire e Bataille: “Se os ricos não são felizes, é porque a felicidade não existe’, reflete. Ou ainda: ‘A humanidade sofre, e eu sofro com ela’. Mas, por mais que seja cínica diante da mediocridade que a rodeia, Lolita/Hell se recusa a assumir o papel de pobre menina rica. Ela não abre mão dessa vida, mordida pela engrenagem infernal da noite: ‘Não vou parar de sair. O que eu iria fazer de meu guarda-roupa Gucci?’.

Sabe aqueles livros que depois que você termina de ler você precisa de um tempo para decidir se gosta ou não dele?! Eu estou me sentindo meio assim com HELL.

HELL foi publicado em 2002, quando a Lolita Pille tinha só 19 anos (!!). Apesar da pouca idade ela escreve bem, dando às palavras novos significados além de fazer uma citação a Morfeu e a Dama das Camélias, e logo no primeiro capitulo tem uma frase perfeita sobre ela e o Capitalismo.

“Eu sou o símbolo manifesto da persistência do esquema marxista, a encarnação dos privilégios, sou os eflúvios inebriantes do Capitalismo.”

O vocabulário do livro é muito bom (já fazia algum tempo que eu não precisava consultar o dicionário enquanto lia).

Quando Fugalaça foi lançado, muitos foram os comentários que ele e HELL eram do mesmo estilo. Tanto Santine e Hell são ricas e a primeira vista fúteis e sem profundidade, além das duas sofrerem por amor e terem finais tão bons (quem já leu um dos dois livros vai saber que esse bom tem dois sentidos) quanto o começo da historia.

HELL virou filme, e até um tempo atrás estava em cartaz no teatro Sesi a peça, com a Barbara Paz estrelando como Hell. HELL é o livro com a maior letra que eu já li e a autora tem mais dois livros publicados Bubble Glum e Cidade Penumbra. Para terminar o post eu digo que o texto acima reflete bem o espirito de HELL Paris – 75016.

PS: No titulo original não tem o “75016”. Para que se perguntar o porque do “75016” a explicação é que esse é o CEP do bairro mais chique de Paris.

2 comentários:

  1. Esse livro é lindo mesmo :D
    Me interessei por esse 'Fugalaça'
    você tem o link pra download dele ?
    Obg,Beijoos

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  2. Utilmamente as editoras tão batendo de frente com os downloads ilegais de livros ¬ ¬
    Sites de download pararan e comunidades no orkut tambem.
    Infelizmente os livros aqui no Brasil são bem carinhos, mas eu juro que Fugalaça é o tipo de livro que totalmente vale a pena comprar

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